"Desde o momento em que nascemos somos exploradores, num mundo complexo e cheio de fascínio. Para algumas pessoas, o interesse pode desaparecer com o tempo ou com as pressões da vida, mas outras têm a felicidade de mantê-lo vivo para sempre."
Gerald Durrell

Ciência no Jardim

'Desde o momento em que nascemos somos exploradores, num mundo complexo e cheio de fascínio. Para algumas pessoas, o interesse pode desaparecer com o tempo ou com as pressões da vida, mas outras têm a felicidade de mantê-lo vivo para sempre.' Gerald Durrell

Você sabe quanto de carbono seu jardim sequestra?

Como podemos ‘limpar’ nossa atmosfera de todo gás carbônico excedente? Há vários sequestradores de carbono, plantas são um deles. Sendo assim, todo jardim sequestra carbono. Mas, quanto carbono seu jardim sequestra?

Agapanthus africanus ou Agapanthus praecox?

Leigos e viveiristas identificam dois Agapanthus comuns nos jardins como Agapanthus africanus e Agapanthus orientalis. (...) Qualquer Agapanthus designado ‘africanus' no comércio de plantas é quase certamente Agapanthus praecox.

A margarida não é uma só flor

Quem diria que uma das flores mais populares de nossos jardins, a margarida, pertencente à família Asteraceae, e, portanto, parente dos girassóis, crisântemos, entre outras, não é uma só flor, mas a reunião de muitas flores?

Plantas que fogem do jardim

Parece estranho plantas ‘fugirem’ do jardim, mas é isso mesmo. Plantas podem escapar do cultivo reservado do jardim e invadir áreas de florestas e campos naturais, tornado-se uma grande ameça à biodiversidade.

22 de fev. de 2015

A manga no Brasil


Manga. Mangifera indica. Foto: Maria Marinho. Wikipedia.


Estamos na época da colheita da manga. Os pés estão carregados. Aqui em Minas, temos um cultivar chamado 'Ubá' em referência a cidade de Ubá, em Minas Gerais, onde esse cultivar desenvolve-se maravilhosamente, produzindo mangas muitos doce e com pouquíssima fibra. Existem muitos cultivares diferentes de manga. Se você ainda não sabe o que é um cultivar leia 'O que é um cultivar'. 

21 de abr. de 2014

O jacu na horta

Tenho um irmão que saiu da cidade e foi morar no campo. Agora ele está descobrindo a alegria de plantar. Vivendo o prazer de todos os dias acordar e ver o verde por toda a parte. Isso é maravilhoso. Mas, a proximidade com a vida selvagem traz outras problemas que uma pessoa que vive ou viveu na cidade não está acostumado. O meu irmão por exemplo está vendo sua horta ser atacada por populações de jacus. 

Penelope supercilares. Foto: M. Eiterer

 O jacu

O jacu é uma ave da família Cracidae (Galliformes). Os cracídeos são aves neotropicais de grande porte conhecidas por mutuns, jacus, jacutingas, aracuãs, ao todo são 50 espécies e 10 gêneros. Os jacus pertencem ao gênero Penelope, que reúne 15 espécies. Os cracídeos formam um dos grupos de aves neotropicais mais ameaçado de extinção. O desmatamento e a caça indiscriminada reduziram drasticamente as populações de cracídeos. Mais de um terço das suas espécies estão em perigo de extinção. O jacus tem hábito arbóricola, ocasionalmente vindo ao chão. Podem ser distinguido das jacutingas pela barbela vermelha, que na jacutinga é azul. Meu irmão vive na região da zona da mata mineira, onde ocorrem Penelope obscura e Penelope superciliares, as duas espécies estão na categoria pouco preocupante pela International Union for Conservation of Nature (IUCN, ver aqui Penelope obscura e Penelope supercilares). No entanto, as análise locais mostram resultados diferentes. Em Viçosa, por exemplo, Penelope supercilares está criticamente em perigo e Penolope obscura está na categoria vulnerável. 

Os jacus alimentam-se  principalmente de frutos, são frugívoros. Embora possam também consumir folhas, flores brotos e insetos. O gênero Penelope é um importante dispersor de sementes, pois os frutos são digeridos rapidamente e as sementes são ingeridas e defecadas intactas e viáveis. Não conhecemos com detalhes a dieta das 15 espécies de Penelope, mas um estudo mostrou que 44 espécies de plantas fazem parte da dieta do jacupemba (P. superciliares). Alguns exemplos de plantas usadas na dieta do jacumpeba são: palmeira juçara (Euterpes edulis), guabiroba (Camponesia xanthocarpa)  peroba-branca (Chrysophyllum gonocarpum), canela-preta (Nectandra megapotamica), canela-amarela (Ocotea dyospyrifolia) canjerana ( Cabralea canjerana). Só para citar algumas.

 Cultivo protegido

Cultivo protegido. É possível criar estruturas menores.Foto:Deyvid Setti e Eloy Olindo Setti.


Para ter uma convivência pacífica com os jacus é preciso proteger a horta, no caso do meu irmão que tem pequenos canteiros, ele pode fazer o cultivo protegido. O cultivo protegido tem muitas vantagens reduz o ataque de pragas, de doenças e propicia economia de insumos, mantém a temperatura e reduz a perda de água. Contudo, para agricultores com grandes áreas o investimento é muito alto, inviabilizando sua instalação. Por isso os estudo das populações de jacus são importantes para entendermos melhor seu  comportamento e criar técnicas de manejo adequadas e mais baratas para a convivência pacífica entre agricultores e jacus. 

O café de jacu

Mas já existem aqueles que tiram proveito dessa convivência para criar produtos diferenciados como é o caso do 'Jacu Bird Coffee'. O proprietário deliberadamente deixa sua plantação de café ser  'atacada' por jacus que comem os frutos. Depois as fezes com o grão são recolhidas, secas e tratadas, produzindo um café de alta qualidade com menor acidez.  Os preços são altos e o café é vendido por quilo e não por saca.

Como fazer o  cultivo protegido

E como fazer o cultivo protegido? Sugiro a construção de um modelo menor do que os usados para grandes produções. Fica bem mais barato e é mais fácil de construir. 

Primeiro é preciso colocar uma armação de vergalhão de construção em forma de arco sobre os canteiros, enterrando as pontas no canteiro. A quantidade de arcos depende do comprimento do canteiro, mas a proximidade dos arcos deve ser adequada para suportar a tela ou o plástico. A altura depende da planta, para a couve sugiro um arco maior do que para o alface. Depois de colocado o arco coloca-se a tela ou o plástico próprio para estufa e de boa qualidade. Coloque o plástico de forma que você possa removê-lo para limpar, plantar e colher, além de arejar. Simples e fácil de fazer.

Fonte:
BirdLife International 2012. Penelope obscura. In: IUCN 2013. IUCN Red List of Threatened Species. Version 2013.2. disponível em <www.iucnredlist.org>. Acesso em 21 de abril de 2014.
BirdLife International 2012. Penelope superciliaris. In: IUCN 2013. IUCN Red List of Threatened Species. Version 2013.2. Disponível em <www.iucnredlist.org>. Acesso em 21 de abril de 2014.
RIBON, Romulo; SIMON, José Eduardo; MATTOS, Geraldo Theodoro de. 2003. Bird extinctions in Atlantic forest fragments of the Viçosa region, Southeastern Brazil. Conservation Biology 17: 1827-1839.
SICK, Helmut. Ornitologia brasileira. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2001. 

9 de fev. de 2014

Por que devemos plantar espécies nativas


Efeito dominó. Arte por David Pendleton.

Efeito dominó no jardim
 Quando visito um amigo sempre ganho uma muda de alguma planta, assim posso dizer que meu jardim é pessoal e guarda muitas histórias e lembranças. Mas, ultimamente ando muito preocupada com que planto no meu jardim. Por quê? Por causa da biodiversidade. As plantas que uso no meu jardim podem alterar a biodiversidade da minha região, criando um efeito dominó, levando a redução de populações tanto de animais quanto de plantas e contribuindo para a extinção desses organismos. 

Exóticas versus nativas  
Porque estamos acostumados a ver determinadas plantas em jardins locais, não quer dizer que elas são nativas. Nós plantamos em nosso jardins muitas plantas exóticas, isto é, que não ocorrem naturalmente em nossa região, a maioria são oriundas da Ásia, Europa ou África. A hortênsia ( Hydrangea macrophylla), por exemplo, é uma planta nativa do Japão e China, onde ela ocorre naturalmente. Aqui no Brasil ela é uma planta exótica. Nós escolhemos essas plantas geralmente por causa de sua beleza e disponibilidade. Mas, nunca pensamos o quanto elas podem afetar outros organismos. Até agora.

Plantas que fogem do jardim 

Algumas plantas ornamentais exóticas podem ser também invasores e são um grande problema para os conservacionistas ( leia também 'Plantas que fogem do jardim'). Um exemplo de uma planta ornamental exótica e invasora que tem dado muito dor de cabeça é o beijo-do-brejo (Hedychium coronarium). Plantas invasoras tem recebido grande atenção por causa do seu impacto sobre as plantas nativas e animais, ao contrário das plantas ornamentais exóticas não invasoras. Entretanto, isso tem mudado nos últimos anos. Agora estamos também interessados em saber que efeito os jardins formados por plantas exóticas tem sobre nossa biodiversidade. E o que descobrimos foi uma sucessão de problemas.

Plantas e insetos, as primeiras peças começam a cair  

No nosso jardim devemos encontrar um grande número de insetos. Se você não está encontrando insetos no seu jardim, isso deve deixá-lo preocupado e não feliz. A maioria dos insetos herbívoros podem reproduzir com sucesso, somente sobre plantas que eles tem compartilhado uma história evolutiva. Com raras exceções, insetos herbívoros não podem adaptar-se rapidamente a novas plantas. Isso porquê os insetos herbívoros não conseguem desenvolver adaptações fisiológicas instantâneas para conseguir comer determinadas plantas sem passar mal ou morrer com isso. Borboletas, por exemplo, colocam seus ovos em plantas ou grupo de plantas que reconhecem quimicamente e as larvas que nascem desses ovos alimentam-se exclusivamente dessas plantas, escolhida pela mãe-borboleta. Algumas ainda conseguem uma defesa química contra predadores. Se, essa planta ou grupo de plantas desaparecem do local, as borboletas não tem onde colocar os seus ovos e mesmo que as larvas nasçam elas não terão o que comer. Assim, a população irá reduzir ou mesmo desaparecer. Um bom exemplo e a borboleta monarca, que identifica e coloca ovos em plantas do gênero Asclepias, cujas folhas serão comidas pelas larvas que nascerão dos ovos e dão a monarca uma defesa química contra predadores. 

Sendo assim, é esperado que em jardins formados por plantas exóticas não tenham a mesma quantidade e diversidade de insetos como os jardins formados por plantas nativas. Pois os insetos nativos buscam aquelas plantas também nativas com as quais compartilharam uma mesma história evolutiva.

 Aves, derrubando mais peças  
Num jardim podemos encontrar muitas espécies de aves, principalmente insetívoras, ou seja, aquelas que comem insetos e mesmo frugívoros que tem na dieta de seus jovens proteínas vinda de insetos. Sem insetos o que essas aves irão comer? A redução de insetos pode ter importantes implicações sobre a conservação das aves.Retirando as espécies nativas de plantas e introduzindo espécies exóticas reduzimos as populações e espécies de insetos e por conseguinte de aves.

Este foi apenas um pequeno exemplo de como é intrincado as relações dos organismos que vivem nos jardins e as consequências da nossa interferência nessa cadeia. Muitas outras peças podem entrar nesse jogo como os anfibios ou até mesmo o solo e os microorganismo que nele vivem. Nossa interferência pode ser muito maior do que está descrito nessas poucas linhas.

Além de favorecer os insetos, aves e outros animais nativos, as plantas nativas também estão melhor adaptadas para crescer no seu local de origem. Assim você terá menos problemas com pragas e doenças, o que significa menos gastos na manutenção do seu jardim. Pense nisso. Escolha as plantas nativas.
M.Eiterer


 

Fonte
Burghardt, Karin T.; Tallamy, Douglas W. and Shriver, W. douglas. 2008. Impact of native plants on bird and butterfly biodiversity in suburban landscapes. Conservation biology, 23:219-224.


The New York botanical Garden. 2012. Bringing Nature Home: What You Can Do. disponível em <http://www.nybg.org/plant-talk/2012/02/wildlife/bringing-nature-home-what-you-can-do/>. Acesso em: 9/02/2012.

28 de ago. de 2013

Identificando plantas

 Uma ajuda para quem busca o nome correto de uma planta

Já fiz várias postagens sobre nomes populares de plantas (ver em 'Nomes cientificos de plantas' ,  'Nomes populares de plantas', 'O nome da planta'). Mas, percebi que muitos leitores visitam o blog Ciência no Jardim  procurando a identificação correta de uma planta.

Identificar plantas não é tão fácil. São 250 mil espécies. Além de um grande número de cultivares ( para saber o que é um cultivar leia ' O que é um cultivar'). E, é preciso conhecer bem a morfologia das plantas e seus nomes. Além, de conhecer a classificação botânica. Algumas plantas são tão parecidas e apenas uma características particular podem separá-las, como no caso de duas palmeiras Butia eriosphata e Butia capitata, o que distingue as duas espécies são características presentes na espata. Você não sabe o que é uma espata? Isso já dificulta o trabalho de identificação.  

Fazer buscas por imagens por nome popular não ajuda muito, pois muitas plantas compartilham o mesmo nome comum, como a babosa que já mencionei em outra postagem     (ver em 'Nomes populares de plantas'). Além disso, vejo muita imagem com identificação errada, mesmo em sites de jardinagem. 

 Use nosso formulário de contato se precisa de ajuda para identificar alguma planta de jardim ou esclarecer alguma dúvida. Faça uma consulta! 
 

15 de abr. de 2013

Quanto carbono seu jardim sequestra?


 Árvores absorvem e estocam carbono. Foto: M. Eiterer
 O efeito estufa é um fenômeno que mantém o calor em nosso planeta, necessário para a manutenção da vida. Vários gases participam do efeito estufa, sendo o gás carbônico o  principal. Sem dúvida, nós lançamos muito lixo na atmosfera, incluindo muito gás carbônico. Como resultado, hoje sabemos que gás carbônico além da conta na atmosfera, provoca o aumento da  temperatura da Terra. Então, como podemos ‘limpar’ nossa atmosfera de todo esse gás carbônico excedente?

Há vários sequestradores de carbono, quer dizer, aqueles que capturam e armazenam carbono, plantas são um deles. As plantas têm a capacidade de sequestrar o gás carbônico da atmosfera, na forma de dióxido de carbono, mediante a fotossíntese, armazenando carbono e liberando o oxigênio. Sendo assim, todo jardim sequestra carbono. Mas, quanto carbono seu jardim sequestra?

Vamos ver como calcular a quantidade de carbono sequestrada por uma árvore. Antes de mais nada, escolha uma  árvore do seu jardim. Em seguida, meça a circunferência do tronco na altura do seu peito ou a 1,30 m acima do chão, com o auxílio de uma trena ou fita métrica. Logo depois, calcule o diâmetro do tronco, lembrando que o diâmetro é igual a circunferência x pi e o valor de pi é igual a 3,14.  Agora, calcule a biomassa de sua árvore usando a seguinte fórmula: B=a Db. Sendo B a biomassa, D o diâmetro e a e b são coeficientes específicos para a espécie ou tipo de vegetação. Então nossa fórmula ficaria assim: B=0,1184 D2,53. Por fim, para encontrar a quantidade de carbono sequestrada pela sua árvore é só multiplicar a biomassa encontrada por 0,45. Pronto! Enfim, você sabe quanto carbono sua árvore sequestra. Se, você tem mais de uma árvore em seu jardim é só somar o valor da biomassa de todas as árvores e multiplicar por 0,45.

Em contraste com o que vimos acima, um carro  joga na atmosfera 2kg de CO2, para cada 1 litro de gasolina consumida. Além disso, ele consome 1.500 litros de gasolina por ano. Portanto, são 3.000 kg ou 3 toneladas de carbono jogado na atmosfera por apenas 1 carro, em 1 ano. Em suma, leitor, quantas árvores você precisaria plantar  ou proteger para compensar a emissão de carbono desse único carro? Se quiser ir mais longe, que tal fazer esse cálculo para a frota de carros da sua cidade?
M. Eiterer

Fonte
AREVALO, Luis Alberto; ALEGRE, Júlio Cesar; VILCAHUAMAN. 2002.  Metodologia para estimar o estoque de carbono em diferentes sistemas de uso da Terra. Colombo: Embrapa Florestas, Documetos 73.
PAYMENT, Denise. 2009. Measuring Carbon Sequestration in Schoolyard Trees and Global Sustainability of Carbon Stores. <http://wupcenter.mtu.edu/education/energy_education/2009/C-Sequestration_Unit-D_Payment.pdf>. Acesso em: 15/04/2013.