"Desde o momento em que nascemos somos exploradores, num mundo complexo e cheio de fascínio. Para algumas pessoas, o interesse pode desaparecer com o tempo ou com as pressões da vida, mas outras têm a felicidade de mantê-lo vivo para sempre."
Gerald Durrell

Ciência no Jardim

'Desde o momento em que nascemos somos exploradores, num mundo complexo e cheio de fascínio. Para algumas pessoas, o interesse pode desaparecer com o tempo ou com as pressões da vida, mas outras têm a felicidade de mantê-lo vivo para sempre.' Gerald Durrell

Você sabe quanto de carbono seu jardim sequestra?

Como podemos ‘limpar’ nossa atmosfera de todo gás carbônico excedente? Há vários sequestradores de carbono, plantas são um deles. Sendo assim, todo jardim sequestra carbono. Mas, quanto carbono seu jardim sequestra?

Agapanthus africanus ou Agapanthus praecox?

Leigos e viveiristas identificam dois Agapanthus comuns nos jardins como Agapanthus africanus e Agapanthus orientalis. (...) Qualquer Agapanthus designado ‘africanus' no comércio de plantas é quase certamente Agapanthus praecox.

A margarida não é uma só flor

Quem diria que uma das flores mais populares de nossos jardins, a margarida, pertencente à família Asteraceae, e, portanto, parente dos girassóis, crisântemos, entre outras, não é uma só flor, mas a reunião de muitas flores?

Plantas que fogem do jardim

Parece estranho plantas ‘fugirem’ do jardim, mas é isso mesmo. Plantas podem escapar do cultivo reservado do jardim e invadir áreas de florestas e campos naturais, tornado-se uma grande ameça à biodiversidade.

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6 de jul. de 2012

Colorindo o verde

Colorindo o verde

Alpinia zerumbet 'Variegata'. Foto: M. Eiterer. Schefflera arboricola 'Variegata'. Foto: M. Eiterer.

Uma  planta variegada é aquela que apresenta variegação, em outras palavras, é a ocorrência de outras cores além da verde na folha e ou caule.Variegação colorida é resultado da presença de outros pigmentos como a antocianina (rosa, vermelho e roxo), carotenóide (laranja) e xantofila (amarelo), além da clorofila (verde), como em Cordyline fruticosa. Ao contrário, a variegação branca é resultado da incapacidade da planta de produzir clorofila, como em Alpinia zerumbet ‘Variegata’ e em Schefflera arboricola ‘Variegata’
Cordyline fruticosa. Foto: M. Eiterer
Tradescantia zebrina. Foto: M. Eiterer
Existem várias causas para  a variegação. Uma delas, talvez a mais comum, é genética. Variações genéticas ou mutações ocorrem ocasionalmente na natureza. Devido a isso, alguns tecidos da planta passam a apresentar características genéticas diferentes dos outros tecidos, como a incapacidade de produzir clorofila ou a capacidade de  produzir outro pigmento. Dependendo da distribuição desses tecidos se uniforme ou aleatório a variegação pode ter padrões: marginal, central, estriada, manchado,  em pintas ou venosa.
E a variegação prata presente em alguns gêneros como Pilea, Begonia, Episcia, Dioscorea, Zebrina e Trifolium? Não existe um pigmento prata. Então, o que causa tal variegação? A variegação prata de plantas como Pilea cardierei ou Tradescantia zebrina é causada pela reflexão da luz na superfície da folha, isso ocorre por causa de uma bolha de ar logo abaixo da epiderme,  que resulta numa reflexão branca ou prateada. Pelos nas folhas também podem refletir uma cor prateada, tal como acontece em algumas espécies de Begonia.
Uma patologia, também pode ser causa da variegação. Infecções virais podem causar o aparecimento de padrões de variegação nas folhas. Esses padrões permitem a identificação do vírus. Um vírus comum em plantas é o vírus do mosaico, como o nome indica produz um padrão de variegação em mosaico. Algumas dessas doenças são graves e causam a morte da planta. Outras  não trazem sérios prejuízos para a planta e são usadas na jardinagem como em Abutilon megapotamicum ‘Variegato’ e  Abutilon pictum ‘Thompsonii’.
A deficiência de nutrientes pode causar um amarelo temporário em áreas especificas da folha da planta. O limbo da folha fica amarelo por deficiência de ferro e magnésio. Mas, as folhas voltam a adquirir a cor verde, quando a deficiência é sanada.
Para reproduzir uma planta variegada, geralmente é usado o método de estaquia, alporquia, mergulhia ou qualquer outra forma de propagação vegetativa. Dessa forma conseguimos exemplares idênticos, mantendo a variegação. Em larga escala é usado a cultura de tecidos.
E,  qual é o porquê da variegação em plantas? A variegação parece ser uma adaptação contra herbívoros. Plantas variegadas são menos propensas a ataque de herbívoros. Algumas plantas podem até mesmo imitar, através da variegação, a presença de larvas nas folhas, evitando os hospedeiros verdadeiros. Como é o caso de Caladium bicolor. Contudo, a variegação branca (ausência de clorofila) pode ser desvantajoso para a planta porque restringe sua capacidade fotossintética. Além disso, essas plantas não toleram condições de luminosidade baixa, podem queimar sob sol direto, pois são sensíveis a luz brilhante. Plantas com folhas totalmente brancas não fazem fotossíntese e acabam morrendo.
Plantas variegadas são comuns nos jardins, pois gostamos delas. Em virtude disso, nós as protegemos e perpetuamos. Naturalmente elas são raras. M. Eiterer
 Fontes
DOWN, Brian.D; VAUGHN, Kevin C. & WILSON, Kenneth G. 1980. Preliminary investigatin of air Blisters in Pilea Cadieri. Ohio J. Sci. 80(6): 280.
*Soltau, U; Dötterl, S & Liede-Schumann, S. 2009. Leaf variegation in Caladium steudneriifolium (Araceae) – A case of mimicry?, Evolutionary Ecology, 23, 503–512.
*Nota: Caladium steudneriifolium é um sinônimo de Caladium bicolor, no texto usei o nome correto.


22 de nov. de 2010

Flores que mudam de cor

São plantas que produzem flores de duas cores ou são flores que mudam de cor?


Bignoniaceae. Foto: M. Eiterer

Algumas das plantas mais comumente cultivadas em jardins domésticos são admiradas por um motivo bastante curioso: suas flores mudam de cor. Esse é o caso do Cambará (Lantana camara, Verbenaceae), da Papoula-de-duas-cores (Hibiscus mutabilis, Malvaceae), do Manacá-da-serra (Tibouchina mutabilis, Melastomataceae) e do Manacá-de-cheiro (Brunfelsia uniflora, Solanaceae). Nessas e em muitas outras espécies, é bom frisar, as plantas não produzem flores de cores diferentes. São as flores que mudam de cor ao longo do seu tempo de vida. Eventos florais desse tipo só podem ser percebidos mais claramente quando o observador acompanha o destino de flores individuais.
A mudança de cor é um fenômeno relativamente comum entre as angiospermas. Ocorre enquanto a flor ainda é jovem, não devendo tal mudança ser confundida com a perda de cores e o escurecimento que acompanham o processo de senescência. Em termos funcionais, são conhecidos ao menos sete diferentes mecanismos associados à mudança de cor das flores, envolvendo três grandes classes de pigmentos vegetais (carotenóides, flavonóides e betalaínas).
Carotenóides, flavonóides e betalaínas são compostos secundários que, além de dar cor a flores e frutos, têm outras importantes funções biológicas. As betalaínas são responsáveis por um leque de cores (amarelo, alaranjado, vermelho, rosa, púrpura), sendo encontradas porém apenas em plantas da ordem Caryophyllales. Como exemplos, podemos citar a Rosinha-de-sol (Aptenia cordifolia, Aizoaceae), Periquito (Alternanthera ficoidea, Amaranthaceae), Três-marias (Bougainvillea spectabilis, Nyctaginaceae), Onze-horas (Portulaca grandiflora, Portulacaceae), Beterraba (Beta vulgaris, Chenopodiaceae) e os cactos em geral (Cactaceae).
Os carotenóides são responsáveis por um leque semelhante de cores (amarelo, alaranjado, vermelho, marrom), sendo encontrados na cenoura, tomate, laranja, pimenta e nas flores do Cravo-de-defunto (Tagetes erecta, Asteraceae). Por fim, temos os flavonóides, responsáveis pela maioria das cores observadas em flores e frutos (amarelo, alaranjado, vermelho, azul). As antocianinas são o grupo mais comum de flavonóides.

As betalaínas e antocianinas não co-ocorrem em uma mesma planta. Quer dizer, plantas que têm antocianina não possuem betalaína, e vice-versa. Flavonas e flavonóis também são grupos de flavonóides encontrados em flores, principalmente nos chamados guias de néctar. Esses pigmentos absorvem certos comprimentos de luz que são invisíveis ao olho humano, mas que são visíveis para outros animais (muitos insetos, por exemplo). De todos os mecanismos bioquímicos e fisiológicos associados com a mudança de cor das flores, a manifestação da antocianina é o mais comum deles.

 Cambará (Lantana camara , Verbenaceae). Foto: M. Eiterer. 
Fatores ambientais, como diferenças no pH do solo, podem levar a mudanças na coloração das flores. Essas mudanças também podem ser pré-programadas, como ocorre com a Pata-de-vaca (Bauhnia monandra, Leguminosae). A flor jovem da pata-de-vaca é esbranquiçada, com uma grande mancha vermelha no meio da pétala central; em determinado momento da vida da flor, no entanto, a pétala central curva-se para trás, como querendo se esconder. Após a conclusão desse movimento, todas as demais pétalas tornam-se rosa. Assim, o que no início era uma flor branca com uma grande mancha vermelha em uma das pétalas transforma-se em uma flor uniformemente rosa.


Descrever os mecanismo pelos quais as flores mudam de cor é um dos objetivos dos estudiosos que lidam com o assunto. Resta, no entanto, um outro, ainda mais complexo e difícil: identificar as pressões seletivas que teriam favorecido a evolução de tal comportamento. 

M. Eiterer