Ciência no Jardim
'Desde o momento em que nascemos somos exploradores, num mundo complexo e cheio de fascínio. Para algumas pessoas, o interesse pode desaparecer com o tempo ou com as pressões da vida, mas outras têm a felicidade de mantê-lo vivo para sempre.' Gerald Durrell
Você sabe quanto de carbono seu jardim sequestra?
Como podemos ‘limpar’ nossa atmosfera de todo gás carbônico excedente? Há vários sequestradores de carbono, plantas são um deles. Sendo assim, todo jardim sequestra carbono. Mas, quanto carbono seu jardim sequestra?
Agapanthus africanus ou Agapanthus praecox?
Leigos e viveiristas identificam dois Agapanthus comuns nos jardins como Agapanthus africanus e Agapanthus orientalis. (...) Qualquer Agapanthus designado ‘africanus' no comércio de plantas é quase certamente Agapanthus praecox.
A margarida não é uma só flor
Quem diria que uma das flores mais populares de nossos jardins, a margarida, pertencente à família Asteraceae, e, portanto, parente dos girassóis, crisântemos, entre outras, não é uma só flor, mas a reunião de muitas flores?
Plantas que fogem do jardim
Parece estranho plantas ‘fugirem’ do jardim, mas é isso mesmo. Plantas podem escapar do cultivo reservado do jardim e invadir áreas de florestas e campos naturais, tornado-se uma grande ameça à biodiversidade.
29 de nov. de 2010
Sobre néctar e nectário
22 de nov. de 2010
Quanto tempo vive uma flor?
De fato, algumas flores abrem e murcham em questão de horas. A flores da "glória-da-manhã" (Ipomoea purpurea), por exemplo, permanecem abertas por apenas uma manhã. No outro extremo do espectro, estão as flores de algumas espécies de orquídeas que duram algumas semanas. Como os botânicos explicam toda essa variação na longevidade floral?
A flor é uma estrutura reprodutiva. Nela estão os órgãos sexuais masculinos e/ou femininos. Na maioria das plantas, as flores possuem estruturas reprodutivas dos dois sexos, mas em outras elas estão em flores distintas ou mesmo em plantas individuais diferentes. A antera é o órgão floral responsável pela produção do gameta masculino e seu empacotamento, formando o grão de pólen. Os grãos de pólen produzidos por uma flor precisam viajar até outras flores. Nessa viagem o pólen pode ser transportado por insetos (abelhas, borboletas, mariposas, besouros, vespas etc), aves (beija-flores), mamíferos (morcegos etc) ou por agentes físicos (vento, água).
A viagem dos grãos de pólen pode ser rápida ou longa, estando eles programados para sobreviver a essa jornada. O ovário é o órgão responsável pela produção dos óvulos que contém os gametas femininos. O estigma é a estrutura receptora de pólen. O grão de pólen deverá cair sobre o estigma, onde terá condições de germinar, para penetrar no tecido estigmático e alcançar o óvulo, dentro do ovário e fertilizá-lo. Após a fertilização, o ovário passa por transformações e passa a ser chamado de fruto, onde se desenvolvem as sementes, que eventualmente darão origem a novos descendentes.
A longevidade floral é o período de tempo durante o qual a flor permanece aberta e funcional, podendo então dispersar e/ou receber grãos de pólen. Algumas plantas aceitam o "casamento entre irmãos" - i.e., ela aceita que os óvulos sejam fertilizados pelo seu próprio pólen. Outras, no entanto, não aceitam e esperarão pela chegada de pólen vindo de outro indivíduo. O segundo caso pode ser mais demorado e, por conta disso, a flor pode permanecer aberta e funcional por um período mais longo. Em contrapartida, isso implica no aumento da variabilidades entre a prole, o que pode ser biologicamente vantajoso.
Esse comportamento de sustentar flores por mais tempo pode ter contribuído para que certas famílias, como as orquídeas e as asteráceas (margarida, dália, girassol etc.), tenham se tornado particularmente numerosas e diversificadas. A flor não é um órgão fotossintético, sendo basicamente uma estrutura importadora de recursos produzidos e elaborados nas partes vegetativas da planta (folhas, raízes, caule). Isso impõe limites ao modo como as plantas equilibram a produção de mais flores novas frente à manutenção de flores velhas por mais tempo.
O próprio lugar onde a planta vive pode favorecer o surgimento de plantas que produzem flores que vivem muito tempo. Em lugares onde os polinizadores são raros, como em altas altitudes, as flores podem viver mais tempo, à espera de grãos de pólen trazidos por algum visitante. As atividades humanas podem, ainda, interferir em todo esse cenário. Hábitats fragmentados, por exemplo, podem aumentar ainda mais a raridade de polinizadores especializados e que já são naturalmente raros. Se o "casamento" não ocorre, as sementes não são formadas e a população de plantas pode diminuir ainda mais de tamanho.
Se você quiser saber qual é o tempo de vida de suas flores preferidas, amarre uma linha colorida (linha de bordar ponto cruz, por exemplo) em alguns botões (se necessário, use linhas de cores diferentes para identificar botões individuais). Quando eles abrirem, registre a data e monitore o que acontece nos dias subseqüentes. Fique atento, pois o tempo exato de duração pode variar mesmo entre flores de uma mesma planta e/ou as condições de crescimento. No fim das contas, esse é apenas mais um capítulo do trabalho dos botânicos que buscam desvendar os mistérios do mundo das flores.
M. Eiterer
Flores que mudam de cor
São plantas que produzem flores de duas cores ou são flores que mudam de cor?
Algumas das plantas mais comumente cultivadas em jardins domésticos são admiradas por um motivo bastante curioso: suas flores mudam de cor. Esse é o caso do Cambará (Lantana camara, Verbenaceae), da Papoula-de-duas-cores (Hibiscus mutabilis, Malvaceae), do Manacá-da-serra (Tibouchina mutabilis, Melastomataceae) e do Manacá-de-cheiro (Brunfelsia uniflora, Solanaceae). Nessas e em muitas outras espécies, é bom frisar, as plantas não produzem flores de cores diferentes. São as flores que mudam de cor ao longo do seu tempo de vida. Eventos florais desse tipo só podem ser percebidos mais claramente quando o observador acompanha o destino de flores individuais.
A mudança de cor é um fenômeno relativamente comum entre as angiospermas. Ocorre enquanto a flor ainda é jovem, não devendo tal mudança ser confundida com a perda de cores e o escurecimento que acompanham o processo de senescência. Em termos funcionais, são conhecidos ao menos sete diferentes mecanismos associados à mudança de cor das flores, envolvendo três grandes classes de pigmentos vegetais (carotenóides, flavonóides e betalaínas).
Carotenóides, flavonóides e betalaínas são compostos secundários que, além de dar cor a flores e frutos, têm outras importantes funções biológicas. As betalaínas são responsáveis por um leque de cores (amarelo, alaranjado, vermelho, rosa, púrpura), sendo encontradas porém apenas em plantas da ordem Caryophyllales. Como exemplos, podemos citar a Rosinha-de-sol (Aptenia cordifolia, Aizoaceae), Periquito (Alternanthera ficoidea, Amaranthaceae), Três-marias (Bougainvillea spectabilis, Nyctaginaceae), Onze-horas (Portulaca grandiflora, Portulacaceae), Beterraba (Beta vulgaris, Chenopodiaceae) e os cactos em geral (Cactaceae).
Os carotenóides são responsáveis por um leque semelhante de cores (amarelo, alaranjado, vermelho, marrom), sendo encontrados na cenoura, tomate, laranja, pimenta e nas flores do Cravo-de-defunto (Tagetes erecta, Asteraceae). Por fim, temos os flavonóides, responsáveis pela maioria das cores observadas em flores e frutos (amarelo, alaranjado, vermelho, azul). As antocianinas são o grupo mais comum de flavonóides.
As betalaínas e antocianinas não co-ocorrem em uma mesma planta. Quer dizer, plantas que têm antocianina não possuem betalaína, e vice-versa. Flavonas e flavonóis também são grupos de flavonóides encontrados em flores, principalmente nos chamados guias de néctar. Esses pigmentos absorvem certos comprimentos de luz que são invisíveis ao olho humano, mas que são visíveis para outros animais (muitos insetos, por exemplo). De todos os mecanismos bioquímicos e fisiológicos associados com a mudança de cor das flores, a manifestação da antocianina é o mais comum deles.
Fatores ambientais, como diferenças no pH do solo, podem levar a mudanças na coloração das flores. Essas mudanças também podem ser pré-programadas, como ocorre com a Pata-de-vaca (Bauhnia monandra, Leguminosae). A flor jovem da pata-de-vaca é esbranquiçada, com uma grande mancha vermelha no meio da pétala central; em determinado momento da vida da flor, no entanto, a pétala central curva-se para trás, como querendo se esconder. Após a conclusão desse movimento, todas as demais pétalas tornam-se rosa. Assim, o que no início era uma flor branca com uma grande mancha vermelha em uma das pétalas transforma-se em uma flor uniformemente rosa.
Descrever os mecanismo pelos quais as flores mudam de cor é um dos objetivos dos estudiosos que lidam com o assunto. Resta, no entanto, um outro, ainda mais complexo e difícil: identificar as pressões seletivas que teriam favorecido a evolução de tal comportamento.
M. Eiterer











