"Desde o momento em que nascemos somos exploradores, num mundo complexo e cheio de fascínio. Para algumas pessoas, o interesse pode desaparecer com o tempo ou com as pressões da vida, mas outras têm a felicidade de mantê-lo vivo para sempre."
Gerald Durrell

Ciência no Jardim

'Desde o momento em que nascemos somos exploradores, num mundo complexo e cheio de fascínio. Para algumas pessoas, o interesse pode desaparecer com o tempo ou com as pressões da vida, mas outras têm a felicidade de mantê-lo vivo para sempre.' Gerald Durrell

Você sabe quanto de carbono seu jardim sequestra?

Como podemos ‘limpar’ nossa atmosfera de todo gás carbônico excedente? Há vários sequestradores de carbono, plantas são um deles. Sendo assim, todo jardim sequestra carbono. Mas, quanto carbono seu jardim sequestra?

Agapanthus africanus ou Agapanthus praecox?

Leigos e viveiristas identificam dois Agapanthus comuns nos jardins como Agapanthus africanus e Agapanthus orientalis. (...) Qualquer Agapanthus designado ‘africanus' no comércio de plantas é quase certamente Agapanthus praecox.

A margarida não é uma só flor

Quem diria que uma das flores mais populares de nossos jardins, a margarida, pertencente à família Asteraceae, e, portanto, parente dos girassóis, crisântemos, entre outras, não é uma só flor, mas a reunião de muitas flores?

Plantas que fogem do jardim

Parece estranho plantas ‘fugirem’ do jardim, mas é isso mesmo. Plantas podem escapar do cultivo reservado do jardim e invadir áreas de florestas e campos naturais, tornado-se uma grande ameça à biodiversidade.

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5 de jul. de 2011

Néctar colorido


O nectário é uma estrutura secretora, que secreta néctar. Ele está presente nas flores ou em partes vegetativas, como folhas. Ele é oferecido como recompensa pelos serviços de polinização, prestados por alguns animais. No entanto, a produção de néctar é dispendiosa para a planta, o volume produzido por uma planta pode consumir até 37% de toda a sua produção fotossintética diária. Logo, néctar tem um importante papel nas interações entre planta e polinizador. Dessa forma, ele está sujeito a pressões seletivas, que podem ser impostas pelos próprios polinizadores, favorecendo, portanto, o surgimento e a manutenção de determinadas características, como por exemplo, cor.

Néctar é comumente caracterizado como sendo um líquido incolor. Contudo, a existência de néctar colorido já era conhecida desde a antiguidade, citado por Homero, em Ilíada (Livro XIXX, versos 37-39). Mas, ele só veio a ser descrito pela primeira vez pela ciência em 1785, pelo sueco Andreas Hesselius (1677-1733), na descrição de uma espécie de Aloe. Outras espécies foram descritas desde então, algumas com interpretações equivocadas ou publicadas sem o devido enfoque, ou em revistas obscuras.
Nesocodon mauritianus, produz néctar de cor vermelha.
Quase dois séculos depois do primeiro relato de Hesselius, uma espécie endêmica e ameaçada das Ilhas Maurício, Nesocodon mauritianus (Campanulaceae), foi descoberta e descrita pelo botânico irlandês Peter Wyse Jackson, no entanto a cor vermelha do seu néctar passou despercebida de Jackson. Em plantas herborizadas o néctar seco é de difícil interpretação, pois pode parecer apenas uma mancha colorida sobre a corola. A cor do néctar só pode ser percebida em plantas vivas. Entretanto, essa seria a espécie que despertaria a atenção dos botânicos para essa intrigante e peculiar característica do néctar.

Assim, 14 anos depois da descrição de Jackson, de Nesocodon mauritianus, Jens M. Olesen e outros, da Universidade de Aarhus, na Dinamarca, estudavam populações dessa espécie, nas Ilhas Maurício e cultivaram a espécie na Universidade de Aarhus. Foi então que descobriram que a cor do néctar  de Nesocodon mauritianus era vermelha e decidiram investigá-lo. Nessa época os pesquisadores acreditavam que essa era a única espécie com néctar colorido no mundo e que tal fato só ocorria nas Ilhas Maurício. Mas, Dennis M. Hansen, da Universidade de Zurique, na Suíça e colaboradores revisaram o assunto e descobriram que outras espécies de plantas em outras partes do planeta produziam néctar colorido. No Brasil, é conhecida apenas uma espécie que secreta néctar de cor azul, Schwartzia brasiliensis (=Noranteia brasiliensis, Marcgraviaceae).

Graças ao trabalho unificador de Hansen, sabemos hoje que néctar colorido surgiu independentemente e repetidamente em diferentes regiões geográficas, tropicais e subtropicais, em 68 taxas, 20 gêneros e 15 famílias de 13 ordens de angiospermas. Para os pesquisadores da Universidade de Zurique, esse padrão de convergência sugere a possibilidade de uma pressão seletiva comum, como a necessidade de um sinal honesto para os visitantes, permitindo que eles avaliem a quantidade de néctar na flor, antes de visitá-la e dessa forma ajustar seu comportamento. Os polinizadores observados em algumas dessas espécies são vertebrados. Aves, em Aloe e Schwartzia brasiliensis e, lagartos (Phelsuma), em Trochetia boutoniana (néctar vermelho) e, Trochetia blackburniana (néctar amarelo). 

Além de transparente, o néctar pode ter as cores: amarelo, azul, laranja, marrom, preto, vermelho e verde devido a presença de compostos secundários na sua composição química como: aurone em Nescodon mauritianus e antocianina Schwartzia brasiliensis. Compostos secundários podem mudar não só aparência, mas também o gosto e digestibilidade do néctar. Contudo, a função do néctar colorido nas outras espécies ainda não está esclarecida. Novas pesquisas devem ser conduzidas com outras espécies, para podermos entender a função e a evolução do néctar colorido.

M. Eiterer
Fontes
OLESEN, J. M., RØNSTED, N., TOLDERLUND, U., CORNETT, C., MØLGAARD, P., MADSEN, J., JONES, C.  G.  &  OLSEN, C. E. 1998. Mauritian red nectar remains a mystery. Nature 393: 529.
HANSEN, D. M.; OLESEN, J. M.; MIONE, t.; JOHNSON, S. D. & MÜLLER, C. B. 2007. Coloured nectar: distribution, ecology, and evolution of an enigmatic floral trait. Biological Reviews vol. 82, pp. 83-111.
SAZIMA, I., BUZATO, S. & SAZIMA, M. (1993). The bizarre inflorescence of Norantea brasiliensis (Marcgraviaceae): visits of hovering and perching birds. Botanica Acta 106, 507–513.



5 de abr. de 2011

Marcando plantas


Encontramos muitas plantas interessantes para observar em um jardim. Podemos observar uma planta como um todo ou apenas partes dela, como flores ou folhas, por exemplo.  A observação pode levar apenas um dia, mas também pode se estender por meses. Se, no jardim existem muitas plantas, encontrar qual planta estavamos observando pode ser uma tarefa difícil.  Precisamos marcar as plantas para a observação. Sem uma marca a confusão é inevitável. Vamos aprender a marcar plantas e partes dela para observação. Vamos precisar de: fita crepe, linhas coloridas (as de bordar ponto cruz são ótimas), caneta permanente e um caderninho para anotar as observações.

Marcando a planta (indivíduo)




Escolha a planta. Passe um pedaço de fita crepe entorno do caule da planta. Na fita crepe anote (com a caneta permanente): a data da marcação e o número do indivíduo (no caso de observar mais de um indivíduo). Pronto, agora você sabe qual indivíduo  está observando no  seu jardim e que dia começou a observá-la. Anote toas as informações em um caderno, não confie na sua memória.
Marcando partes de uma planta


Depois de marcado o indivíduo,  marcamos a estrutra que iremos observar. Vamos usar como exemplo a flor, mas podemos marcar folhas e frutos da mesma forma. Uma planta pode produzir muitas flores, se não marcamos qual estamos observando, no outro dia...será uma confusão. Uma linha colorida amarrada no pedúnculo da flor ajuda na identificação. Para que  identifique as flores observadas de forma rápida e precisa, podemos colar um pedaço de fita crepe na ponta da linha. Na fita crepe anote o nome, numeração ou se está trabalhando com alunos em uma escola,  anote o nome do aluno ou do grupo que está observando e a data que foi iniciada a observação . Mantenha a marcação até o fim das observações.


Agora podemos observar a longevidade de uma flor ou a mudança de cores de uma flor ou, o período de formação de um fruto ou, a longevidade de folhas, por exemplo. Tenho certeza que você irá descobrir coisas muito interessantes para observar no seu jardim.


M. Eiterer

Se você tiver quaisquer comentários, perguntas ou sugestões sobre qualquer coisa relacionado com este texto, deixe-me um comentário, ou apenas um olá.


11 de dez. de 2010

Néctar: água, açúcar e uma pitada de...

Flor de Ceiba speciosa (Malvaceae)


À medida que as investigações em torno da interface planta/polinizador progrediam, alguns pesquisadores se voltaram para o estudo da composição química do néctar. Um trabalho pioneiro nessa área foi realizado por Gaston Bonnier (1853-1922), botânico francês que quantificou os diferentes tipos de açúcares presentes no néctar de algumas flores. Boa parte do que sabemos hoje sobre a composição química do néctar deve-se, porém, ao amplo e meticuloso trabalho do casal Baker - os ingleses Herbert G. Baker (1920-2001) e Irene Baker (1918-1989) [1].

Sabemos hoje que o néctar é primariamente uma solução energética, composta de água e açúcares (sacarose, frutose, glicose). Mas não é só isso: trata-se de uma solução energética devidamente temperada... A proporção dos diferentes tipos de açúcar, a concentração de cada um deles e a quantidade total de néctar são algumas das características que variam de acordo com a espécie de planta [2]. E é em parte graças a essa variação que flores de plantas diferentes tendem a atrair conjuntos mais ou menos distintos de polinizadores.

Flores com néctar rico em sacarose, por exemplo, atraem principalmente abelhas, mariposas, borboletas e aves, enquanto flores com néctar rico em frutose ou glicose atraem outras espécies de abelhas e moscas. A concentração de açúcares (i.e., a quantidade de açúcar presente por unidade de volume de água) determina a viscosidade do néctar e isso também influencia a identidade dos visitantes. Abelhas, por exemplo, preferem néctar mais viscoso, enquanto borboletas e beija-flores preferem néctar mais aquoso. Por sua vez, a quantidade de néctar influencia tanto a identidade como o tamanho dos visitantes. Como regra geral, flores que produzem grandes quantidades de néctar atraem os polinizadores de maior porte.

Além de açúcares, sabemos agora que o néctar contém também uma rica e variada gama de substâncias químicas, como aminoácidos, proteínas, lipídios, antioxidantes, minerais e vitaminas, além de algumas toxinas. Mas ainda sabemos relativamente pouco sobre o papel dessas substâncias e suas implicações na polinização. Os aminoácidos, por exemplo, parecem ser importantes como complemento alimentar para animais que necessitam de uma dieta rica em proteínas, como é o caso de borboletas e moscas. Os antioxidantes podem estar presentes a fim de evitar a oxidação e, conseqüentemente, a degradação de outros componentes importantes do néctar. Por sua vez, alguns tipos de proteínas parecem agir na proteção da flor contra o ataque de fungos.

Mas como explicar a presença de substâncias tóxicas no néctar: afinal, por que adicionar toxinas na composição química de um líquido produzido para funcionar como atrativo? Uma explicação plausível, seria a seguinte: a presença de substâncias tóxicas, como ocorre no néctar das flores da datura (Datura, Solanaceae) e do rododendro (Rhododendron, Ericaceae), é um modo de evitar a ação de
pilhadores oportunistas. Isso também ocorre com as flores da catalpa (Catalpa speciosa, Bignoniaceae), cujo néctar é rico em toxinas que inibem a ação de formigas nectarívoras, embora essas mesmas substâncias não façam qualquer mal aos legítimos polinizadores.

Para finalizar, um breve comentário antropocêntrico: a presença de algumas dessas outras substâncias no néctar (além de água e açúcar) é responsável pelas diferenças que nós, seres humanos, percebemos no sabor e na cor do mel.
M. Eiterer & Felipe A.P.L Costa* 

Notas
(*)Felipe A.P.L Costa é biólogo meiterer@hotmail.com, autor de Ecologia, evolução & o valor das pequenas coisas (2003) e A curva de Keeling e outros processos invisíveis que afetam a vida na Terra (2006).

1. Sobre as influências científicas do casal Baker, ver Bock, J. H. & Linhart, Y. B., eds. 1989. Evolutionary ecology of plants. Boulder, Westview Press.

2. Ver Baker, H. G. & Baker, I. 1983. A brief historical review of the chemistry of floral nectar. In: B. Bentley & T. Elias, eds. The biology of nectaries. NY, Columbia University Press.


21 de nov. de 2010

Você sabia que a margarida não é uma só flor?

Você sabia que a margarida não é uma só flor?


A margarida,
uma reunião de muitas flores.
Foto: M. Eiterer
Quem diria que uma das flores mais populares de nossos jardins, a margarida, pertencente à família Asteraceae, e, portanto, parente dos girassóis, crisântemos, entre outras, não é uma só flor, mas a reunião de muitas flores?

Áster significa estrela em latim, e é por causa da distribuição de suas flores, que lembra o astro, que as margaridas e as outras flores de sua família levam este nome científico. Há, na margarida, inúmeras flores muito pequenas, que crescem bem próximas, uma ao lado da outra, sobre uma mesma estrutura. Esse conjunto de flores é chamado, entre os pesquisadores, de inflorescência. Para o tipo de inflorescência particular das margaridas – pequeninas flores, que funcionam perfeitamente crescendo juntas parecendo uma única flor –, os botânicos dão um nome especial: pseudanto (pseudo = falso; anthos = flor), ou seja, falsa flor.

Tente examinar a falsa flor da margarida aproximando-se bem dela. Você verá que há ali reunidas dois tipos de flores: umas formam o miolo amarelo, enquanto as outras formam a borda esbranquiçada. Mas não pense que elas crescem assim juntas apenas para que possamos admirar sua união. Essas flores têm funções biológicas importantes quando unidas, como a de produzir néctar, atrair polinizadores, além de gerar e receber pólen. Para isso, se dividem para desempenhar essas diversas “tarefas”. Muitas começam a desabrochar das extremidades em direção ao centro, assim, enquanto as flores da periferia estão na fase feminina – durante a qual são capazes de receber pólen –, as flores mais centrais estão na fase masculina – na qual liberam seu próprio pólen.

Flores amarelas (no centro) e
brancas (periféricas) da margarida.
Foto: M. Eiterer

Agora que você já sabe um pouco mais sobre as flores da margarida, que tal viver um dia de botânico e analisar mais de perto ainda essa flor? Para isso, você vai precisar somente de uma lupa e de um pouco de paciência. Tente separar e contar as flores da margarida e identificar os dois tipos de flores que formam sua inflorescência. Saiba que as margaridas e tantas outras flores de sua família ainda guardam muitos segredos que os botânicos estão tentando desvendar. Quem sabe você se apaixona por uma margarida e acabe se juntando a eles no futuro?

lb8-s Eiterer, M. você sabia que a margarida não é uma só flor? Revista Ciência Hoje da Criança, nº 178.





  A autora
Marinês Eiterer Marinês Eiterer gosta de plantas e jardins desde criança. Por isso foi estudar biologia. Plantou tantas árvores que perdeu a conta. Hoje identifica plantas e escreve sobre elas.